• Professor Alexander Lima

A receita para o empreendedor não misturar trabalho e rotina pessoal


No último dia 21 de dezembro, o Jornal O Globo publicou um Caderno Especial sobre os 10 anos do MEI - Micro Empreendedor Individual. Para esta compilação de reportagens muito significativa convidou um time de especialistas para conversar sobre o assunto, e eu tive o prazer de ser um desses convidados. Em minha conversa com o repórter conversamos muito sobre como não misturar as rotinas e a vida pessoal com a atividade profissional. Abordamos temas como a separação de custos e despesas da casa e da atividade empresária, receitas e ganhos da pessoa física e jurídica e sobre todo o controle que deve haver por parte do empreendedor da dinâmica financeira de seu negócio. Essas e outras reportagens bem bacanas foram publicadas na versão impressa e online do Jornal O Globo. A versão online está disponível em https://oglobo.globo.com/economia/a-receita-para-empreendedor-nao-misturar-trabalho-rotina-pessoal-23320024 porém somente para assinantes. Vou transcrever essa matéria por aqui para que todos possam ter acesso!


A receita para o empreendedor não misturar trabalho e rotina pessoal

Especialistas sugerem estabelecer horários e deixar claro para a família que não está disponível O Globo21/12/2018 - 04:30 O “I” de MEI pode significar “individual”, mas não deve ser confundido com “indivíduo”. Na tênue fronteira entre as atribuições da empresa e a rotina pessoal, o segredo para o sucesso, dizem os especialistas, é separar as contas, os horários e as tarefas que são do negócio e as que são da família. Para quem trabalha em casa e não mora sozinho, o desafio é ainda maior, e a regra básica é ter disciplina. A recomendação é separar o máximo possível a pessoa física da jurídica. Segundo Juliana Lohmann, analista do Sebrae/RJ, isso é ainda mais importante para o MEI, pois ele vive no limiar entre o autônomo e o empresário: — É fundamental para crescer que ele não misture o que é faturamento e despesas do negócio com os gastos dele como indivíduo. O primeiro passo, segundo a analista, é ter o faturamento numa conta bancária dedicada exclusivamente à empresa. Sabendo o que tem em caixa, é possível fazer um planejamento mais eficiente. Se tem um funcionário, é preciso saber o impacto desse salário nas contas. Também é necessário ter capital para reinvestir. Assim, o microempreendedor pode retirar seu lucro, sem prejudicar a saúde financeira da atividade. Alexander Araújo, professor de Finanças e Contabilidade do Centro Universitário Celso Lisboa, diz que o site do MEI (www.portaldoempreendedor.gov.br) oferece planilhas para facilitar esse controle. Na avaliação dele, um dos motivos para a confusão entre indivíduo e empresa é que o MEI não é obrigado, por lei, a registrar uma contabilidade formal. — O fato de o MEI não precisar dessa contabilidade não significa que não deva fazê-la. O ideal é que a faça, mesmo que de maneira simplificada. Vai chegar o momento em que, havendo bons resultados, a atividade individual vai crescer, e o microempreendedor terá que pensar num espaço separado ou mesmo num outro regime tributário. Mas ele só vai chegar lá se souber o quanto gasta — explicou. A contabilidade separada também facilita na hora de prestar contas à Receita.— Como o microempreendedor vai declarar corretamente o quanto da receita da empresa foi para ele, se as contas estão misturadas? — afirmou Juliana. Trabalhando em casa A necessidade de uma separação clara não se resume à área financeira. Muitas vezes, o MEI trabalha em casa e não pode deixar que a vida familiar interfira na atividade, e vice-versa. É importante saber qual ambiente da casa corresponde à empresa e ter a estimativa dos custos com energia, telefonia e internet, que estarão embutidos nas contas do imóvel. — O melhor dos mundos seria a separação total (das despesas). Não acontecendo, ele deve fazer uma estimativa e contar como custo da empresa (esses gastos fixos), até para deixar mais claro, no fim, o que é lucro ou não — disse Araújo. Além disso, segundo especialistas, é preciso estabelecer rotinas e respeitá-las. É necessário ter horários fixos para trabalhar e deixar claro para a família que, embora esteja em casa, a pessoa não está sempre disponível para tratar de questões domésticas. — Quando a pessoa mora sozinha, é mais fácil, mas, dentro de um ambiente familiar, pode ser bem complicado — avaliou Juliana. De olho na legalidade Para ela, também é importante saber separar a imagem da empresa da imagem pessoal e ter preocupação constante com a legalidade: — Não adianta a cozinheira se formalizar e ter um gato de luz para manter os alimentos refrigerados. Ou o editor de vídeos e fotos trabalhar com software pirata. Ninguém deveria fazer isso, mas, a partir do momento em que você tem um CNPJ, tem responsabilidades maiores. E existem diversas opções de softwares livres, antivírus etc. Não há justificativa para a ilegalidade. Caso receba a visita de clientes em casa, é importante manter o ambiente arrumado, sem expor sua privacidade. Se seu número de celular ou sua conta em rede social são usados para fechar negócios, evite mensagens ou imagens polêmicas no perfil. Separar fisicamente a empresa da vida doméstica foi fundamental para Ana Luísa Arruda, de 31 anos, que, desde 2015, mantém a marca Sucos Que Beleza. Ela vende sucos naturais na orla do Rio, produzidos em parceria com a mãe. Com formação em Relações Públicas, a microempreendedora decidiu mudar de atividade ao perceber que, além da água de coco, não havia opção de bebidas saudáveis nas areias. O sucesso da empreitada acabou complicando sua rotina caseira: — De repente, o apartamento em que moro com meus pais ficou entulhado de frutas. Os liquidificadores faziam um barulho enorme. Após um ano, eu e minha mãe decidimos alugar um espaço perto de casa para produzir. O espaço comercial, embora implique um custo maior, permitiu tocar o negócio preservando a tranquilidade doméstica e ajudando a organizar os gastos. Mas Ana Luísa admite que ainda mantém uma única conta bancária, misturando o faturamento como MEI e as finanças pessoais: — Meu pai faz o gerenciamento, e tudo tem funcionado. Mas, no futuro, pretendo ter a contabilidade da empresa independente.