• Professor Alexander Lima

A nova pedagogia é um erro. Parece que não se vai à escola para estudar"​...​ Será?

Atualizado: 1 de Jun de 2019


Inger Enkvist, pedagoga sueca, com larga experiência em educação, defende um modelo de ensino mais tradicional, com destaque para a disciplina, o estímulo ao esforço dos alunos e a autoridade do professor em sala de aula.


Leia a entrevista completa de Enkvist ao El País Aqui.


O ponto de vista ratificado pela pedagoga sueca se contrapõe a postulados mais modernos que direcionam seu foco a uma educação sócio emocional, centrado no desenvolvimento do indivíduo, suas relações entre seus pares e com o mundo.


Entre os pontos defendidos por Inger Enkvist estão a proibição do uso de celular em sala de aula, assim como a limitação por parte dos pais ao uso doméstico desta ferramenta pelas crianças. Inger critica, também, o uso de novas tecnologias em sala de aula e as atividades desenvolvidas em grupo. Segundo a pedagoga a impressão deixada pela nova pedagogia é que o jovem não vai mais a escola para estudar, e sim para realizar tarefas, com maior ênfase no social que no intelectual.


Segundo Daniel Goleman, alguém com menos de 18 anos provavelmente nunca conheceu um mundo sem internet. Crianças de até 10 anos nunca se relacionaram em um ambiente sem aparelhos portáteis por perto. Essas crianças e jovens crescem em um cenário diferente, que continuará a mudar à medida que a tecnologia evolui.


A visão de Goleman reflete a hiperatividade dos estudantes atuais, numa mudança de perfil e consequentemente da necessidade destes jovens, sob todos os aspectos, em especial na forma de aprender.


Na obra “O Foco Triplo”, de Daniel Goleman e Peter Senge se observa uma visão totalmente oposta a defendida por Inger Enkvist, onde são apresentadas as habilidades que precisam ser desenvolvidas por esta nova geração na construção de um aprendizado mais eficiente. Entre os “focos” descritos na obra estão o foco em si mesmo, o foco nos outros e o foco no mundo.


Em um ensino baseado por competências e não mais por disciplinas isoladas e desconectadas do contexto geral, o desenvolvimento dos conhecimentos, habilidades e atitudes podem ser mais bem desenvolvido com a visão sócio emocional de Goleman e Senge do que com a perspectiva disciplinadora e até certo ponto autoritária de Enkvist.


Esta afirmação baseia-se na resposta a seguinte pergunta: Que tipo de profissional e quais competências esses egressos precisam ter para se destacar no mercado de trabalho, ou seja, no mundo atual?


Uma visão restrita e disciplinadora talvez possa inibir o desenvolvimento da empatia e da visão holística necessária para que se possa oferecer aquilo que a sociedade atual precisa e que certamente será diferente daquilo que será demandado no futuro.


O mundo atual nos propõe um acesso universal a informação, de forma simples, direta e móvel. Segundo Enkvist, o bom professor tem em suas características centrais a responsabilidade e a formação, onde a maior habilidade deve ser a atração e retenção junto aos alunos pelos conhecimentos e conteúdos que serão ensinados. Entretanto, na era do conhecimento, permeado pelas tecnologias, a informação se apresenta de forma acessível e constante. Sob essa ótica, o educador assume papel de curador das informações, ou seja, trabalhar com aquilo que realmente importa (Cortela), aproveitando-se dos dados e informações digitais para a construção do conhecimento.


Enkvist cita o estudo do psicólogo sueco Anders Ericsson que mostra a necessidade de um esforço prolongado para se melhorar em algo, fazendo-o de forma consciente e trabalhado por um professor. Esta visão pode ser inicialmente corroborada com os estudos de Gardner, quando o autor disserta sobre a mente disciplinada, onde afirma que é necessário identificar aquilo que realmente importa e dedicar-se por uma quantidade de tempo significativa a isso, pois, segundo o autor, se vale a pena estudar aquele assunto que seja feito em profundidade. Entretanto, Gardner complementa que para o desenvolvimento de uma mente disciplinada é preciso uma pluralidade na abordagem do tema escolhido e principalmente que seja oferecido aos aprendizes oportunidades de representar suas compreensões em diversas condições, o que vai ao encontro dos três focos de Goleman e Senge, do autodesenvolvimento e esforço autônomo (foco em si, sua atenção e concentração), foco nos outros e no mundo (com a multiplicidade de abordagens e diversos modos de compreensão e aplicação).


Goleman e Senge defendem, ainda, que seria bem proveitoso que alguns princípios pedagógicos pudessem ser convergidos num único sistema educacional, dentre os quais destaca-se: que estudantes pudessem construir seus próprios modelos e conceitos e pudessem testar suas próprias maneiras de compreender problemas, e que a competência dos estudantes fosse construída de maneira que estes fossem responsáveis pelo próprio aprendizado.


Conclui-se, portanto, que há valor na abordagem defendida por Enkvist, no entanto, o mundo atual demanda uma abordagem mais social e emocional da educação, com focos distintos, porém complementares entre si. Não se trata de aversão a disciplina ou de uma “escola onde se pode tudo”, mas numa escola que forme seus egressos e futuros profissionais para o atendimento das necessidades do mundo moderno.

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